Afinal, é gradação ou clímax? Veja para que serve o recurso estilístico
Veja esse recurso estilístico funciona e exemplos que destacam sua aplicação na literatura e música.
A gradação é uma figura de linguagem que intensifica ou reduz progressivamente a força de uma ideia, utilizando uma sequência ordenada de termos. Ela pode ser classificada em dois tipos principais: a ascendente, conhecida como clímax, e a descendente, chamada de anticlímax. Vamos entender melhor cada uma delas.
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Gradação (ou clímax)
A gradação é uma figura de linguagem caracterizada por uma sequência progressiva de palavras ou expressões que, quando organizadas de forma ascendente ou descendente, intensificam ou reduzem a ideia transmitida no enunciado. Essa característica faz com que alguns estudiosos da língua também a classifiquem como uma figura de acumulação, devido à sua natureza cumulativa.
Qual é o efeito produzido pela gradação?
A gradação cria um impacto no discurso ao amplificar ou suavizar a mensagem, promovendo uma evolução semântica que reforça ou modera o sentido geral do texto. Veja o exemplo a seguir:
O dia estava bonito, muito belo, verdadeiramente exuberante.
Neste caso, há um aumento gradativo na intensidade dos adjetivos que descrevem o dia, passando de “bonito” a “verdadeiramente exuberante”. Essa construção torna a percepção mais rica e progressiva.
Outro exemplo clássico é encontrado nos versos de Gregório de Matos:
“Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sobra, em nada.”
Nesses versos, as palavras selecionadas seguem uma sequência lógica que intensifica a ideia de degradação e extinção. Os termos progressivamente sugerem o desaparecimento, desde a transformação em “flor” até o “nada”, criando um efeito de crescente impacto emocional e visual. Essa gradação ressalta o tema central da transitoriedade e da efemeridade da vida.
Classificação
A gradação pode ser classificada de duas maneiras principais, dependendo do impacto gerado: clímax e anticlímax.
Clímax ou gradação ascendente
O clímax, também chamado de gradação ascendente, caracteriza-se pela intensificação progressiva dos significados ao longo de uma sequência de termos. Essa progressão semântica cria um efeito de crescente emoção ou impacto. Exemplos literários e musicais ajudam a ilustrar essa técnica:
- Exemplo de Chico Buarque
“O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso”
Aqui, a gradação ascendente é evidente na sequência de adjetivos que descrevem o guerreiro. Ele passa de vistoso, um atributo visual, para temido, que reflete um impacto emocional, e finalmente atinge o auge como poderoso, que representa a força máxima. - Exemplo de Adriana Calcanhotto
“E como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora”
Nesse verso, há uma evolução clara nos níveis de proteção sugeridos: a “segunda pele” é delicada, o “calo” oferece maior resistência, a “casca” é ainda mais firme, e a “cápsula protetora” representa a barreira mais forte. Esse movimento de intensificação é típico do clímax. - Exemplo de Paulo Coelho e Raul Seixas
“Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida
Existem tantas
Um acidente de carro
O coração que se recusa a bater no próximo minuto
A anestesia mal aplicada
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio”Nessa composição, as possibilidades de morte listadas evoluem de uma situação comum, como um acidente de carro, para cenários cada vez mais angustiantes, como a dor prolongada de uma doença terminal. O clímax é perceptível nesse aumento gradual de tragédia e seriedade; contudo, ao mencionar “um escorregão idiota”, a sequência toma um rumo inesperado, desviando do tom dramático para algo mais trivial. Esse momento marca a introdução do anticlímax, um recurso que suaviza ou quebra a expectativa criada pelo clímax.
O que é anticlímax?
O anticlímax, por contraste, ocorre quando a progressão da intensidade é abruptamente interrompida ou redirecionada para um desfecho inesperadamente menos impactante. Ele pode criar efeitos de ironia, humor ou surpresa, desarmando o leitor ou ouvinte após uma construção dramática.