Hora literária – veja 5 poemas de Olavo Bilac
Uma seleção especial que destaca a beleza e o lirismo da obra do poeta parnasiano.

A literatura brasileira é rica em vozes marcantes, e Olavo Bilac certamente é uma delas. Considerado um dos maiores representantes do parnasianismo no Brasil, Bilac encantou gerações com sua escrita refinada, seu lirismo apaixonado e sua habilidade única com as palavras.
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Nesta edição da “Hora Literária”, selecionamos cinco poemas inesquecíveis do autor que ilustram toda a beleza e musicalidade de sua obra. Prepare-se para se emocionar com versos que atravessam o tempo e continuam a tocar o coração dos leitores.
Os poemas de Olavo Bilac
É praticamente inevitável ouvir o nome de Olavo Bilac e não lembrar do parnasianismo — movimento literário marcante e, por vezes, controverso da literatura brasileira. Embora não tenha sido o pioneiro do estilo, Bilac destacou-se como seu maior expoente, ao lado de nomes como Alberto de Oliveira e Raimundo Correia. Fiel à tradição clássica, ele defendia com entusiasmo os moldes da literatura antiga, trazendo à tona referências da cultura greco-romana e adotando com maestria formas poéticas fixas.
Entre essas formas, o soneto ocupava um lugar especial na preferência de Bilac. De origem italiana, atribuída ao poeta Giacomo da Lentini no século XIII, o soneto foi resgatado por Bilac como um exercício de rigor formal e musicalidade. Ainda que hoje seja lembrado por seu vocabulário sofisticado e pelo apego à estrutura em detrimento do conteúdo emocional, sua poesia conquistou tanto o público quanto a crítica. Durante as primeiras décadas do século XX, seus versos eram presença constante em saraus e encontros literários, especialmente entre a elite carioca. Esse prestígio lhe valeu o título de “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, concedido pela revista Fon-fon, uma das mais influentes publicações da época.
Para que você possa apreciar a beleza formal e o apuro linguístico do autor, reunimos cinco poemas marcantes de Olavo Bilac – obras que exemplificam o talento que o consagrou como um dos grandes nomes da poesia nacional.
NEL MEZZO DEL CAMIN…
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.(Poesias, Sarças de fogo, 1888.)
A UM POETA
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, no silêncio e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica, mas sóbria, como um templo grego.Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.(Tarde, 1919.)
OUVIR ESTRELAS
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”Não pare agora… Tem mais depois da publicidade 😉
(Poesias, Via-Láctea, 1888.)
LÍNGUA PORTUGUESA
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura;
Ouro nativo, que, na ganga impura,
A bruta mina entre os cascalhos vela…Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceanos largos!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!(Tarde, 1919.)
AS ONDAS
Entre as trêmulas mornas ardentias,
A noite no alto mar anima as ondas.
Sobem das fundas úmidas Golcondas,
Pérolas vivas, as nereidas frias:Entrelaçam-se, correm fugidias,
Voltam, cruzando-se; e, em lascivas rondas,
Vestem as formas alvas e redondas
De algas roxas e glaucas pedrarias.Coxas de vago ônix, ventres polidos
De alabatro, quadris de argêntea espuma,
Seios de dúbia opala ardem na treva;E bocas verdes, cheias de gemidos,
Que o fósforo incendeia e o âmbar perfuma,
Soluçam beijos vãos que o vento leva…(Tarde, 1919.)
Mycarla Oliveira, especialista em língua portuguesa, no portal Pensar Cursos, também detalha sobre “Redação: principais conectivos para o texto (com tipos)“, pois dominar o uso dos conectivos é essencial para garantir coesão e coerência em qualquer redação, seja no ENEM, em concursos ou na produção de textos acadêmicos.